sábado, 16 de março de 2013

VAMOS AO CINEMA "ÁGUIA" PARA A ETERNIDADE DA INFÂNCIA (II)

Na cidade de QUELIMANE, nós tínhamos três Salas de CINEMA, (ÁGUIA,CHUABO e ESTÚDIO), fora as itinerantes ou as que terão existido antes da proclamação da Independência. Isso quando já estudava na ESCOLA SECUNDÁRIA E PRÉ-UNIVERSITÁRIA 25 DE SETEMBRO.E como a gente costumava esperar ansiosamente pelas férias, para irmos dia sim, dia sim ao CINEMA! Durante as férias, nós tínhamos "autorização" uma espécie de passaporte para a vadiagem para ir ao centro da cidade, e não perdíamos a oportunidade de ir ao CINEMA ÁGUIA para assistir aos filmes mais recentes, ainda que fossem CUBANOS, CHECOSLOVACOS, SOVIÉTICOS, BÚLGAROS, JUGOSLAVOS, ALEMÃES, EGÍPCIOS, PORTUGUESES, FRANCESES, ITALIANOS, AMERICANOS, INDIANOS, CHINESES ou JAPONESES. E subitamente, podíamos ser tudo! BRUCE LEE, TOSHIRO MIFUNE, ALAIN DELON, AMITABH BACHCHAN ou JOHN WAYNE! Por vezes, nós costumávamos chegar molhados ou suados, mas a mudança de clima que por vezes sucedia, não nos impedia de nos divertirmos com os Filmes. Uma hora e meia, duas horas ou três horas de escapada da rotina e disciplina da ESCOLA eram muito reconfortantes.

Ainda não tinham chegado os FAST FOOD AMERICANOS, mas havia as deliciosas patanicuas de Côco ou farinha, os amendoins assados ou fritos, o matago,o mutxapaué, a bagia ou as apas com creme de banana caseiro que nos alegravam o estômago. Os bilhetes do cinema eram baratos, saiam caros sobretudo quando a Sala esgotava e tínhamos de comprar na candonga. Mas o divertimento estava garantido na ida à cidade!
Claro, temos que andar para a frente.
Não se pode viver de prazeres distantes e Salas de CINEMA perdidas. Mas não há problema em matar saudades de um passado permanentemente revisitado no tesouro das memórias. O que são saudades, senão uma clara tentativa de tentar conservar aquilo que era bom no passado? E do passado, lembrei-me daquela mítica era dourada da grande Tela. E do belo e inesquecível CINEMA "ÁGUIA".
Comprei cassetes de vídeo e DVDs de Filmes INDIANOS, JAPONESES, AMERICANOS, FRANCESES, ITALIANOS e INGLESES, já em PORTUGAL. Não posso vê-los todos agora. Não há tanto tempo disponível!
Mas sou um sentimental e guardo-os no meio das minhas humildes relíquias e tesouros da infância como lembrança dos meus dias mais puros, belos e felizes. Lembro-me bem de como caminhava feliz sozinho de volta para casa, depois de mais uma sessão, e de como ao longo do percurso do centro da cidade para os arredores, junto ao Torrone Velho, caminhava silencioso e iluminado pelo luar, sonhava, depois da matiné da tarde. Viajava pelo MUNDO! Viajava!

Delmar Maia Gonçalves
(Poeta/Escritor Moçambicano)

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