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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Leituras em Diagonal por Jorge Viegas

O medo e a Esperança de Fernando Couto




“Glória a Deus nas alturas, e Paz na Terra aos homens de boa vontade”. Esta frase angélica é a epígrafe ideal para um escrito no qual se pretenda assinalar o nascimento de Jesus. Julga-se que os poetas são homens de boa vontade. Eu julgo que nem todos o são. Mas o poeta Fernando Leite Couto, decerto que o é. Nascido em Rio Tinto, Porto, em 1924, e fixado na Beira, Sofala, Moçambique, a partir de 1953, este poeta foi escrevendo a sua obra algo à margem dos centros de interesse literários, mas não de um modo superficialmente atento à realidade africana.


Num território ocupado, os únicos sinais permitidos são os do ocupador. A dimensão humana do sujeito à ocupação é rasurada, e passa a ser integrada como um elemento paisagístico. Só que, a configuração anímica do ocupador não é uniforme. Um ou outro elemento, dos que a constituem, recusam acertar o passo com as linhas gerais que lhes são definidas como sendo as mais próprias.

Fernando Couto é, com muita propriedade, um desses elementos. Ele tenta, e porque animado por uma fé verdadeira na possibilidade de comunicação entre homens de raças e culturas diferentes, decerto que a conseguiu obter. E a mais cabal prova desse conseguimento, será não só a sua obra literária como a do seu filho, o meritoriamente laureado escritor moçambicano, Mia Couto.

O poema “O medo e a esperança” retirado do livro “Jangada do inconformismo” descreve a busca de sinais de entendimento e aproximação entre dois seres humanos divididos por um passado de incompreensão e de antagonismo brutal. A perspectiva desvelada é a do poeta, permanecendo a da outra personagem do poema na incógnita do seu silêncio de oprimido.

O poeta inicia a sua narrativa a partir do seu próprio movimento: “Tranquilo e devagar entro na aldeia | de mão ao alto aberta em sinal de paz | desertas e contudo palpitantes | se encontram ainda as palhotas.” Quando o seu olhar se cruza com o de um dos habitantes da povoação o poeta apercebe-se duma tensão latente gerada por um terror ancestral: “ No único rosto presente é visível | o medo está atento procurando antecipar-se | nos meandros da incómoda adivinha | Falo e sorrio e entreteço pontes de caniço | e nãos sei estendê-las até à outra margem: | fechado e atento o rosto em frente do meu | entremeia um rio sem vau e sem barcos | de águas opacas e demasiado largo”. As raízes do medo afundam-se na noite dos tempos: “Procuro na memória de distantes avós | autênticos e críveis sinais de paz | e ao fazê-lo acordo aves de lembranças | de ventres pejados de sangue e ódios | e apenas avivo no rosto em frente as cores do medo. | Olho o meu braço estendido e nu | inofensivo e pronto à espera do acolhimento | e no rosto em frente projecta-se uma sombra | a dolorosa sombra-lembrança de um chicote | E o medo ganha relevo no rosto escuro | atento e vigilante à porta da palhota: | pergunto aos teus olhos e às tuas costas | à tua carne e ao abismo dos teus olhos | onde e quando brotou a fonte desse medo | -  como se eu fosse o deus vivo do raio | e fizesse empalidecer o teu rosto cor de noite | a ti que nunca me viste e contudo és valente | e já viste de perto a fome de feras em liberdade. A pergunta do poeta debate-se com a impassibilidade silenciosa daquele a quem é dirigida: “Quero perguntar de frente aos teus olhos | e a tua cabeça pende como um ramo | ameaçando de morte com o peso dos frutos | prestes a perderem-se inúteis em chão batido.” Mas a esperança que anima o coração do poeta permite-lhe ter a certeza ser possível estabelecer elos de ligação solidária entre ele, erroneamente identificado como um dominador, e o camponês moçambicano envolto pelas sombras do medo: “Quero perguntar-te e não sei os gestos | nem as palavras mágicas ou compreensíveis | para conjurar a mancha de medo | que ensombra o teu rosto esculpido em negro | Não sei os gestos e as palavras mágicas | e todavia não desisto e procuro | certo de haver uma ponte praticável | entre os meus e os teus olhos erguidos.” E essa busca insistente dos gestos e das palavras mágicas justificam uma parte razoável da obra poética de Fernando Couto, e, em grau mais elevado, a extensa obra literária de Mia Couto.

Jorge Viegas  
(Poeta/Escritor Moçambicano) 




          

domingo, 20 de janeiro de 2013

Homenagem a Fernando Couto


É com profunda consternação que o CEMD tomou conhecimento do desaparecimento físico do grande "Vulto" da cultura Moçambicana.
Até Sempre Fernando Couto!

 
FERNANDO COUTO



«Comecei, como então era costume, por fazer quadras, que, porém ficavam muito longe de ter a esplêndida expressividade e beleza das quadras populares que formam o Cancioneiro Popular Português.
Nasci nos arredores do Porto, um ambiente de arrabalde citadino e ainda de alguma ruralidade, o que me tornou apaixonado da natureza. Estudei no Porto, onde beneficiei daquele ambiente muito vivo que era o dos finais da Segunda Guerra Mundial. A minha adolescência tirou muito proveito do que aprendi nos cafés como complemento do ensino. Foi aí que li a imprensa francesa clandestina que era publicada escapando da censura da ocupação alemã. A poesia de resistência representada por esse mago que foi Aragon, por Éluard, Supervielle e outros seduziu-me a tal ponto, que em 1944, completei o meu primeiro livro, que ficou para sempre inédito e se chama Amada de Nome Indizível. Do conjunto enviei um poema ao Adolfo Casais Monteiro que me escreveu a animar-me e a pedir autorização para publicar um na nova revista denominada Mundo Literário, na qual fui o segundo, logo a seguir a Jorge Sena. Ao mesmo tempo publiquei, poesia de «engagement», como era moda, em jornais de Famalicão e da Póvoa do Varzim.

Vivi na Beira durante 20 anos. Era um ambiente cultural interessante e por isso aí publiquei os meus primeiros livros:

Poemas Juntos à Fronteira, respondia a uma crença de que o Mundo vivia um momento de transição que já tardava, já era mais utopia do que crença justificada: não chegou a transpor a fronteira que o levaria a uma vivência de humanidade mais justa, mais fraterna.O desencanto, esse, ganhou voz na Jangada do Incoformismo; o barco tinha naufragado, mas eu, incoformado, navegava ainda numa jangada. Ainda no mesmo ano, ganhei o concurso da Câmara Municipal e, com esse dinheiro, publiquei O Amor Diúrno, um conjunto de poemas sensuais e eróticos. Em notória diferença de conteúdo publiquei Feições Para Um Retrato.

No total das seis obras, publiquei apenas 183 poemas, Entretanto fiz muitos mais, obedecendo a estados de alma muito variados e um tanto espaçados, mas que me não pareciam dignos de publicação e acabavam no cesto dos papéis

Os dois últimos livros publicados em Maputo: Monódia deveu-se às amizades do António Sopa e do Calane da Silva. É muito resultado de um monólogo que mantinha comigo desde longa data. Já Os Olhos Deslumbrados é a expressão de muitos motivos de deslumbramento que a vida tem proporcionado aos meus olhos.E ainda organizei e encontra-se inédita a antologia Amor Solar, com poemas desde o antigo egípto e de várias culturas até ao século XIX.
Apesar de muito admirar o Octávio Paz, prefiro a definição de Louis Mac Neice: «a poesia é um instrumento de precisão para fixar a reacção de um Homem à vida».»

Fernando Couto

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OBRAS DO AUTOR
Poemas junto à fronteira - Beira, 1959. Edição do Autor;
Jangada do incoformismo - Beira, 1962. Colecção «Poetas de Moçambique»;
O Amor Diurno - Beira, 1962. Edição doAutor;
Feições para um retrato - Beira, 1871. Edição ATCM;
Monódia - Maputo, 2001. Edições AMOLP;
Os Olhos Deslumbrados - Maputo, 2001. Edição Ndjira;
Rumor de Água ( Antologia Poética)- Maputo, 2007. Edição Ndjira;


TRADUÇÕES
Rubayyat, de Omar Khayyam  - 1.ª edição Morais editor, 1981; 2.ª edição Estampa, 1990;
Ladrões de Prazer -Antologia da poesia Hispano-árabe, 1991;
Dez poetas espanhóis do século XX - Ndjira, 2003.


JORNALISMO EXERCIDO
TEMPO INTEIRO
O Século - Lisboa
Notícias - Beira e Maputo
O Comércio do Porto - Porto

CORRESPONDENTE
Jornal de Notícias, em Maputo e na área do Douro-Sul
O Comércio do Porto em Maputo

COLABORADOR
Notícias da Beira - Beira
Diário de Moçambique - Beira
Notícias - Delegação da Beira
Europeu - Lisboa
Paralelo 20 - Beira
Lamego Hoje - Lamego
Savana - Maputo
Domingo - Maputo

NA RÁDIO
Aero-Clube da Beira
Rádio - Clube de Moçambique (Lourenço Marques)
Rádio Moçambique - Maputo