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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Ian Amos Komenský (Coménio) de Delmar Domingos de Carvalho


"Comenius é uma daquelas raras personagens da história da humanidade que vale a pena conhecer, ou revisitar, até pelo seu brilhante exemplo de honestidade, coragem, coerência, abnegação e tenacidade. É importante que não nos esqueçamos do contexto e da época conturbada e de enorme intolerância que viveu, além de uma infância marcada por tragédias e dramática solidão. (...)
Consideramos um livro vivamente aconselhável e a descobrir que navega pelas águas da reflexão, Biografia histórica, Pedagogia, Didáctica, Educação, Teologia ecuménica cosmocrata, Filosofia, Direito, Política, Retórica, Fotografia, Arte e Literatura. "
Delmar Maia Gonçalves

Ian Amos Komenský (Coménio), um livro de autoria do escritor português Delmar Domingos de Carvalho, que conta com uma vasta produção literária, abrangendo diversos temas desde ensaio, biografia, teatro, filosofia, vegetarianismo, ficção, poesia, esoterismo, sociologia, música, etnografia, meditações teóricas e investigações sobre várias áreas, é um ensaio sobre a vida e obra de Coménio, sendo uma das poucas obras publicadas, em Portugal, sobre este genial pedagogo, político, filósofo e cosmocrata.

Ian Amos Komenský (Coménio)
Autor: Delmar Domingos de Carvalho
Ilustração da capa: Miguel Ângelo de Carvalho
Prefácio: Delmar Maia Gonçalves
P.V.P. 12€
Edições CEMD



quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

CORRENDO ATRÁS DE UM SONHO - CHASING AFTER A DREAM e O AVENTUREIRO GANSO-PATOLA DO CABO AFRICANO/THE ADVENTUROUS AFRICAN CAPE GANNET de Ester Sousa e Sá

Ester de Sousa e Sá, nasceu em Portugal e ainda criança imigrou em 1952 com os pais para África, Moçambique.
Tendo vivido em África durante 44 anos, dos quais os dois primeiros anos foram vividos na Beira, mudaram-se em 1954 para uma colónia Inglesa e aí cresceu e fez os seus estudos.
Depois do casamento porém, foi de novo viver para Moçambique e em 1975, por força das circunstâncias, foi viver para a África do Sul com a sua família. Apesar de ter seguido uma carreira bancária, a sua paixão pelas artes, levou-a a iniciar a pintura no final dos anos sessenta quando vivia em Moçambique. Ao longo dos anos foi desenvolvendo a sua própria técnica e, o que começou como um desafio, tornou-se uma paixão e a média que escolhe para expressar a sua criatividade, é a aguarela e tintas a óleo.
Nas suas obras prefere enaltecer a beleza que na vida existe e, dedica-se à arte com paixão e entusiasmo. Descreve-se como uma naturalista que dentro de um estilo realista/impressionista, pinta tudo o que toca a sua sensibilidade artística, dando cor às telas brancas. As suas obras nascem pelo prazer e paixão que tem pela arte, levando-a a pintar o que vê, sentindo na alma o que pinta.
Em 1996, devido à doença do pai, demitiu-se do emprego e regressou a Portugal. Desde então tem-se dedicado inteiramente às artes, tendo além da pintura, feito escultura e experimentado o caminho da escrita criativa, tendo já três livros publicados e alguns poemas seus publicados em várias antologias.
Como domina bem a língua Inglesa, o seu primeiro romance, Chasing After a Dream foi escrito na língua Inglesa. Escreveu também um livro juvenil bilingue com suas próprias ilustrações, O Aventureiro Ganso-Patola do Cabo Africano/The Adventurous African Cape Gannet.
Ao longo dos anos, tem participado em várias exposições de arte tanto pessoais como colectivas.

Mais recentemente participou nas seguintes exposições colectivas:

2012 – Despertares da Arte - Museu Face – Espinho
2012 – Gallery M - Viena de Áustria
2012 – 2º Encontro Luso-Galaico - Porto
2013 - 3º Salão Internacional de Arte – Porto
2013 - II Bienal de Espinho
2013 - Pintar o Porto – Galeria Vieira Portuense
2013 - Mulheres artistas Migrantes na Fundação Pro-Dignitate - Lisboa
2013 - Café Majestic - Porto.
2014 – Dia Mundial da Mulher – Paços do Concelho de Vila Nova de Gaia
2014 - Pontes Luso-Galaicas – Centro Cultural de Chaves
2014 – Minha África, África Minha - Casa da Beira Alta – Porto
2014 - Mulheres d´Artes em Liberdade na Biblioteca Municipal de Espinho
2014 - 3º Encontro de artes ao redor do Porto – Galeria Vieira Portuense
2014 – Ao redor do Touro – Galeria Vieira Portuense
2014 - 1º Encontro Ibérico de Arte – Castelo de Oropesa – Espanha
2014 - Outonos Inquietos- Fundação Dionísio Pinheiro e Alice Cardoso Pinheiro – Águeda

Muito recentemente foi convidada a participar num manual que brevemente a Amazon terá à disposição do público: International Watercolour Artists Handbook for Aspiring Artists and Art Lovers. Neste manual figuram 39 artistas internacionais de mais de 25 países em que Ester de Sousa e Sá com as suas aguarelas representa Portugal.
Várias das suas obras encontram-se espalhadas no estrangeiro, principalmente na África do Sul, Nova Zelândia, Alemanha, Vaticano, Inglaterra e, também em Portugal.

Para mais arte de Ester de Sousa e Sá, poderá visitar o site:
http://www.facebook.com/ester.the.art.in.me
Contacto - email: sa.ester@gmail.com

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CORRENDO ATRÁS DE UM SONHO, é a tradução do meu primeiro livro, um romance escrito em Inglês, CHASING AFTER A DREAM. A estória projeta-se nos anos após guerra e retrata a vida de Jeffrey e Sally dois personagens que, embora pertencendo a extratos sociais diferentes, partilham a mesma determinação para melhorar a situação difícil em que se encontram. Conhecemos estes dois personagens quando eles têm uns vinte e poucos anos de idade, na altura em que Jeffrey, um órfão que, até então levara uma vida rodeada de pobreza e crime, decide perpetrar um último roubo com a intenção de angariar o dinheiro necessário para comprar a passagem de barco que o levará para outro país para começar uma vida nova.
Os caminhos de Jeffrey e Sally cruzam-se num ponto crucial das suas vidas, quando ambos sofrem retrocessos e decepções de ordem emocional e financeira depois de alguns erros cometidos.
Encontram-se por acaso, sentem-se atraídos um pelo outro e ajudam-se mutuamente o melhor que podem.
Existe no entanto, uma forte razão porque a atração que sentem um pelo outro não possa resultar numa união.
Entretanto a vida de Jeffrey sofre uma reviravolta e ele é obrigado a deixar Sally precipitadamente, apanhando o navio que o levará numa memorável e fascinante viagem através da Africa austral.
O leitor, transportado por Jeffrey através do Sul de África numa viagem empolgante repleta de maravilhas e situações invulgares, vai ao mesmo tempo tomando conhecimento da vida colonial nos anos cinquenta.





O AVENTUREIRO GANSO-PATOLA DO CABO AFRICANO/THE ADVENTUROUS AFRICAN CAPE GANNET
Neste livro bilingue, (Português/Inglês), Ester de Sousa e Sá é a autora e ilustradora.
É uma fábula que nos conta a estória de um ganso-patola do Cabo Africano muito especial.
Gilberto Ganso é sonhador, curioso e aventureiro, características que o levam a explorar o mundo. Poder-se-á dizer que é um ganso imigrante.
Para além de toda a valiosa informação didáctica sobre estas aves marinhas, à semelhança de outras fábulas, este livro também nos transmite uma mensagem muito especial.


sábado, 1 de junho de 2013

DESDE A PORTELA DO HOMEM AOS RIOS ALMONDA E ALVIELA, TERMINANDO NA ALTURA E MANTA ROTA -- DAS COMEMORAÇÕES ON-LINE DOS 50 ANOS DE VIDA LITERÁRIA DO POETA, PINTOR E CRÍTICO DE ARTE FERNANDO GRADE, QUE PUBLICOU RECENTEMENTE O LIVRO DE POEMAS "NÃO MINTAS ÀS PEDRAS" (Edições Mic). PARA PARTILHAR COM QUEM LÊ -- E SINTA AO LER: EM SUMA, QUE FIQUE LAVADO E NU COMO OS GESTOS DE UMA CRIANÇA.

POEMAS DE
    FERNANDO GRADE
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            SONATA
   EM TORRES VEDRAS
                                -//-
Pelo som que deixavas na água,
seria verde e palha o nosso remorso.
Sizandro vão chamando àquele rio que
melhor se ouve do que cheira. E no outro lado da vila,
por cima das portas, uma criança-vidraça
procura pássaros-com-olhos-de-chuva.
                        -//-
Estou sempre em viagem,
pronto para excursões de trevo e cidra;
acompanho girafas e animais de pêlo raro
por súbitos caminhos de montanha,
na circunferência dos silvados,
em excitantes corpos viajados.
                        -//-
Abrem-se janelas sobre o mosto;
alguém berra com manhas de jibóia;
e devagar, na ternura que as coxas insinuam
cobertas de ganga, como moscas de pedra e sexo
-- as raparigas assaltam Torres Vedras e
cantam zumbindo.
                       -//-
As ancas, céleres, preparam as vindimas,
o colher das cerejas que,
depois, metálicas, cairão a pique no palato.
Aqui teremos todos os bulícios,
oh gengiva de feno.
                               -//-
Partirei, amanhã, num carro carregado de uvas.
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Torres Vedras
-- 9 de Abril de 1978
(in cadernos de poesia "VIOLA DELTA II".
Coordenação de Fernando Grade.
Julho de 1978, Edições Mic.
In "SAUDADES DE SER ÍNDIO".
Aparato gráfico / Atelier Edições Mic.
Revisão / Ester Pintasilgo.
Edições Mic.
Estoril / Setembro de 1981).
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       EM TORRES NOVAS:
                A FALÉSIA
                                             "Cunegundes desconhecia que havia perdido
                                a formosura, porque ninguém lho tinha dito".
                                                                         (in "Cândido", de Voltaire)
                                                 -//-
Ali no jardim, ao pôr-do-sol,
Sobre este rio (Almonda, de seu nome),
Observo com olhos marítimos a natureza.
Com os mesmos olhos azebrados
Vejo o Almonda como se
Fosse uma falésia, um bocado redondo
De mar; até descubro gaivotas voando
Sobre a sinistra maresia que
Abocanha as casas,
Oh musgo dos telhados.
                          -//-
Sinto-me como se estivesse na praia,
Num sítio que fosse talvez de heróis e
Sargaços (a Normandia); e o rio ergue-se inteiro
No ar, a todo o comprimento da alma;
É uma navalha bondosa.
                              -//-
Por entre as flores -- uma rapariga velha
Curte o pacato rosto de quem espera
O namorado que não virá mais.
Da terra sobe um ruído que
Se dilui rápido. Suor castanho? Os passos?
São oa metais que descem sobre
As águas misteriosas do rio.
E por isso a memória agita também as águas
-- Faz companhia.
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Torres Novas
-- 9 de Abril de 1978.
(Ibidem)
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         VELHA TERRESTRE               COM INCENSO
                                                                         para o Óscar Lopes
                                           -//-
Vai velha, mas
catita no seu renovado pé-de-dança
tão à flor dos olhos. Alma
lesma.
                                          -//-

Diz ao espelho -- voz off --
que o tempo não entardece
nas ânforas que (ela) teceu.

                                         -//-

Vem de uma viagem longa de cortesãs
e segredos, vai de chapéu
gorrazul onde fica vistosa a baba
do rato.

                                      -//-

Tem por si (velha catita)
as ruas tão de cravos por cruzar
-- o postal lembradiço: Nova Iorca
Madride              um cheiro de cebola
preso ao avental.

                                    -//-

Vai de nuvem nova, dente
postiço, nada sabe de Arquimedes
ou Pasteur. Sua filosofia?
Ser uma cabra de
Cristo.
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Estoril -- 12 de Abril de 1977
(in livro de poemas
"SERENATA AO DIABO".
Capa e colagem trabalhada / Fernando Grade.
Desenho ilustrativo / António Ole.
Foto / A. F. de Sousa.
Revisão / Edições Mic.
Edições Mic / Estoril / Abril de 1978)
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         TORREENSE
                                                      para o cão Rublo
                                  -//-
Gosto deste lume gosto destas algas
com a sua lareira de vermes
porque o cheiro do cão sobe aos livros
as portas fecham-se e abrem-se sobre o dorso canino.
O cão é o craque da casa.
Casa de cão vestida.
Casa com aroma de esponjas
cão lindo de trevas.
Animal com manhas de açúcar:
tudo vai e vem à boca do cão.
Oh cão perdoa-me.
Já não tenho alma suficiente
para incendiar a tua vida,
de bicho à chuva das palavras,
sempre doido por rua.
                            -//-
Cão, oh cão chama-me bruto sem vinho
e trata-me por amigo.
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Torres Vedras -- 29 de Junho de 1985
(in "O LIVRO DO CÃO", Mic. Estoril
-- Fevereiro de 1991).
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ODISSEIA AO SALTAR DA CAMA


                                    -//-


Acordei no Pragal em casa de Luís e de Maria,
no leito da pequena Tânia que foi passar o domingo
                                                                [com os avós.
Acordei cercado de desenhos muitos e lindos que
parecem bocas arraçadas de morango,
bonecos rápidos saídos da terra,
aviões feitos de alma.
Em baixo ouve-se um cão comunista opondo-se
                                                             [ao cimento,
ao silêncio.
Ontem disse os meus poemas bebendo água:
eram quatrocentas pessoas
na Sociedade Filarmónica Piedense
a ouvir o barulho das minhas terraplanagens,
e vi gaivotas voadas nos olhos de muita gente.
Acordei agora mesmo no Pragal a pensar
                                  [nos vates do Chiado
que (nas cinco livrarias da rua)
vendem onze livros aos amigos, e
são felizes por terem tanto público!
Na varanda cintila um branco moinho de
papel entre pedras minúsculas.
Pudesse a minha vida ser a cópia desse brinquedo:
acordar sempre no meio de desenhos que cantam e
sobem às paredes; ser um eterno lenhador
                                                   [de emoções;
sentir-me bem à janela.
                             -//-
Acordei de vez no Pragal, e
sei agora que a poesia é a raiva de fazê-la.

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Pragal -- 23 de Julho de 1978
(in livro de poemas
"COMPRA-ME UM DOIDO".
Capa / Fernando Grade
Foto / Manuela Ferreira
Revisão / Pedro Gonçalo Grade.
Edições Mic
Estoril, Novembro de 1988)
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        O TANGO DA CHUVA

                                          "Uma hora de amor é um curso de teatro
                                 completo"
                                                            (Camilo Castelo Branco)


M. R. Bulhoz era ciumento
e em outros muitos outros negócios de ver
                                                            [e sentir
procurava rodas e roldanas febris
por dentro do vento
à flor dos ossos
e por vezes, olheirento, pensava:
a água lava todas as cicatrizes.
M. R. Bulhoz mostrava-se um animal de viagens
rancoroso como todos os amorosos diabólicos.
E refugiava-se na sala dos morcegos
onde a música sabe a bolor preto
pêssegos ratados
e terra húmida de ocra
mas sonhava que os nervos dão flor
como as cabeleiras das raparigas
                                  [da Andaluzia.
Bicho perverso, M. R. Bulhoz lasca
                                [os sentimentos
mais puros e tem medo
-- tem medo porque sabe que
o mar tem sanfonas e crisântemos
e as sereias, agora, besuntam os olhos
com excrementos de gaivota.

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Estoril -- Setembro de 1981
(Ibidem)
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          CAMAS EM BRUXO

                        (Arte Maior)

                         -//-

Quatro pés cresceram pela cama fora;
vão de beijo à ré, sete lenços no ar.
A dona da cama foi de barco embora,
vai tonta de abraços, não lhe vou chegar.
                                           -//-
Perdi os retratos, a bonita manha,
tenho as meias rotas, sou de muitos fados.
Parto os gestos todos, minha pobre lenha
de morrer aos poucos, em tantos bocados!
                                          -//-
Nasci na cisterna, numa noite queda,
vinham velhas damas, sinas de lacrau,
ver meu corpo ungido por manhas de seda.
                                          -//-
E cresci nas trevas (fui o trevo mau!),
surgiam mostrengos do fundo das casas,
e a rosa que foi ao chão já tinha asas.

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Estoril (1989)
-- 31 de Julho / 1 de Agosto

                                     -//-
(in livro de sonetos
"A MINHA PÁTRIA É O SÁBADO".
Capa e respectivo desenho
da série "TEORIA DAS MULTIDÕES"
/ Fernando Grade.
Aparato gráfico e revisão
/ Atelier Edições Mic.
Edição nº. 67.
Edições Mic -- Colecção Salamandra / 15.
Estoril, Novembro de 1989.

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              OS GREGOS                                  -//-
                                                      para a Conchita Bonafuente
-
"Os Gregos economizavam o seu dinheiro com um cuidado
com um cuidado quase maníaco e um dia Monique descobriu
porquê. Eles economizavam o seu dinheiro para um dia poderem
voltar à pátria e comprar um olival".
                                                                   (Grace Metalious)
                                 -//-
Os Gregos
-- que tiveram na caça às cobras
um desporto muito intelectual --
deram-nos tudo:
o sal
o olho filosófico
a gramática
o cu nu
e até uma noção pouco metafísica de porta-moedas.
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Tetuan -- Verão de 1973
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(in livro de poemas
"O VINHO DOS MORTOS"
-- 5ª. Edição, Universitária Editora,
1977-1979-1985-1986-1999).
5º. Edição: capa e desenhos das séries
"TEORIA DAS MULTIDÕES"
e "SILHUETAS LATINAS" /
Fernando Grade.
Revisão / Pedro Gonçalo Grade /
Ester Pintasilgo.
Lisboa, 1999.

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domingo, 24 de março de 2013

Que Há para Lá do Sonhar?

Céu baixo, grosso, cinzento
e uma luz vaga pelo ar
chama-me ao gosto de estar
reduzido ao fermento
do que em mim a levedar
é este estranho tormento
de me estar tudo a contento,
em todo o meu pensamento
ser pensar a dormitar.

Mas que há para lá do sonhar? 





Vergílio Ferreira 
(Poeta/Escritor Português)

O HOMEM DOS SONHOS


Que nome dar ao poeta
esse ser dos espantos medonhos?
um só encontro próprio e justo:
o de José o homem dos sonhos

Eu canto os pássaros e as árvores
Mas uns e outros nos versos ponho-os
Quem é que canta sem condição?
É José o homem dos sonhos

Deus põe  e o homem dispõe
E aquele que ao longo da vereda vem
homem sem pai e sem mãe
homem a quem a própria dor não dói
bíblico no nome e a comer medronhos
só pode ser José o homem dos sonhos




Ruy Belo
(Poeta Português) 

quinta-feira, 21 de março de 2013

POEMA DE FERNANDO GRADE

 RUSGA NO BAIRRO ALTO COM SAIAS GRITADAS

 CORRERIAS APITOS ESTRIDENTES (VÃO NA RAMONA!)
 E O QUE SERIA ESCRITO NO RELATÓRIO

 SE (POR OBRA E GRAÇA DO ESPÍRITO SANTO)
 O POLÍCIA DE COSTUMES SE TRANSFORMASSE
 EM MIRONE DESAPAIXONADO

 OU CRONISTA DE RUAS MALDITAS
  A pega não deu o pito ao chui. 
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(in livro de poemas
"SERENATA AO DIABO",
de Fernando Grade.
Capa do Autor.
Desenho de António Ole.

 
Foto de A. F. de Sousa.
Edições Mic.
Estoril, Abril de 1978.
Esgotado).
Fernando Grade
(Poeta Português)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Linha de Montagem

Toca a sirene d'entrada
Da fábrica onde estou empregada
E entra humano formigueiro
Para trabalhar o dia inteiro.
Nos nossos postos ja colocados,
Terminamos trabalhos inacabados.
Fios coloridos uns vão puxando
E nos conectores colocando.
Outros, fazem rápidos enfitamentos,
Uniões e enganos desatentos.
"Zero defeitos!" nos nos vem exigir,
Numa cablagem pronta a sair.
Ensurdecem os ouvidos adoecidos
Pelas máquinas que libertam rugidos,
Ou assobios deveras irritantes,
Que se vêm tornando stressantes.
Ueeeeeeeeé! Ueeeeeeeeé! Ueeeeeeeeé!
Sirene d'entrada, todos de pé!
Tchec Tchac Tchec Tchac Tchec Tchac
Máquinas de corte em zigue-zague.
Vruuum! Vruuum! Vruuum!
Movem os motores um a um.
Zig Zig Zig Zig Zig Zig
Vêem-se as pranchetas a fugir.
Agora os fios que se unem,
Depois as uniões que se fundem,
As negras fita-colas que se desenrolam
Nas cablagens em que se enrolam.
O tic-tac do relógio constante
A lembrar o tempo restante.
O nervosismo da rapidez,
Dos trabalhos que correm com fluidez.
Vem enfiiiiiiiiim a hora do almoço
E todos fogem em alvoroço.
Devoram a comida apressadamente
E engolem um café bem quente.
Voltam para o posto para trabalhar,
Quase sem tempo para respirar.
Recomeça tudo outra vez
E continua-se o que ainda se não fez.
Instala-se novamente a confusão,
Que gera problemas de audição,
Enxaquecas, cortes e tendinites,
Varizes, stresses e artrites,
Para que se faça a produção,
Por uma fraca recompensação.
Grita então a sirene de saída,
Saem todos em fugida
E chega assim a paragem
Dum dia na linha de montagem.

Vera Novo Fornelos
(Poeta/Escritora Portuguesa)

terça-feira, 19 de março de 2013

E vós políticos de Direita e de Esquerda



E vós políticos de Direita e de Esquerda,
Seus Ladrões, vendidos, vigaristas,
Cabrões, merdosos, egoístas,
Construindo um mundo cheio de mentira
Espero que se engasguem na própria sátira
E que se afoguem na própria merda


Zé Tuga
(Poeta Português)

PAINEL DE POESIA MODERNA, PROPOSTA DESINIBIDA DO PRÓPRIO POETA (FERNANDO GRADE), A COMEMORAR, NO ESTORIL E EM OEIRAS, MEIO SÉCULO DE VIDA LITERÁRIA, E QUASE-QUASE OUTRO TANTO TEMPO DE PINTURA


COZIDO À PORTUGUESA

                                  Fernando Grade

Entre o cheiro acre da morcela e
o arroz que não há
-- falamos de mães (algumas) bordadas
de giesta.
O vinho era um deus circunciso
como se a branca parede recta
movida fosse por lanternas
("dedadas" -- diria o meu amor quase albanês).
Ao fundo, chuva e
laranjas de Lisboa.
Pego no pão claro, embrulho-o
no toucinho, lembro-me
que Sartre talvez comesse de outro modo
o cozido à portuguesa -- e avanço magnético
pela tarde acima, porque
de chouriços de carne
também se constroem bandeiras.
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(in livro de poemas
"SERENATA AO DIABO",
de Fernando Grade.
Edições Mic.
Estoril, 1978.
Esgotado).

(in antologia "25 ANOS DE POESIA
ANTOLOGIA 1962 - 1987",
de Fernando Grade.
-- Aparato gráfico e Revisão / Atelier Edições Mic.
-- Desenhos da série "TEORIA DAS MULTIDÕES",
de Fernando Grade.
-- Prefácio do Autor
"25 Anos de Vida Literária
ou a Poesia não se faz por Decreto".
-- Edições Mic / Colecção Salamandra / 12.
-- Estoril, Janeiro de 1988.
-- Esgotado).
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A RAPARIGA DOS MORTEIROS

PROSOPOEMA DE FERNANDO GRADE




à memória de Raissa Solovieva, morta em 1942,


na frente de Estalinegrado






TU eras a rapariga dos morteiros, a moça que trazia os cabelos soltos
pela nordestia. Tinhas um cereja cobalto a bailar nos olhos e, no ven-
tre, uma gaivota sem praia nem maresia. Podias ter ficado quieta ao
pé das lesmas, á lareira, ou vivendo do último beijo (quando nem o
primeiro deste), ou na dúvida ter alguns mortos heróicos na família.
Mas partiste para mastigar a neve, ou não fosses a rapariga russa
dos morteiros.
Ficaste para sempre de olhos abertos, tendo na língua o azul do tri-
go e das balas. O teu corpo misturou-se com as ervas sem nome,
com os bichos da estepe, e o sangue bom corria num arbusto de ne-
ve. Mas o rosto perfeito, sem um moscardo, como se fosses beijar
ou beber água ou comer mel, passou para os olhos de todos os ca-
maradas. Todos o levaram (quem lá chegou) até às portas de Ber-
lim, às casas esburacadas , até ao saibro da palavra bíblica --
"olho por olho, dente por dente". Ó Raissa, o obus nazi foi devolvi-
do ao ventre das berlinenses. Tenho, agora, o teu retrato à minha
cabeceira. O meu quarto cheira a Europa e estão lá os teus cabe-
los. A boca translúcida. Esses olhos da cor do Levante. E é por is-
so que sou um bom fetichista. E nunca deixo de beijar, todas as ma-
drugadas, ao deitar-me, os lábios molhados, sanguíneos, que se
desprendem do teu retrato antiquíssimo, ó saudosa rapariga rus-
sa dos morteiros.


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(in livro de poemas "A +2 = A RAIVA".
Edição Dilsar.
-- Lisboa, 1970).
(in antologia "25 ANOS DE POESIA

ANTOLOGIA 1962 - 1987",
de Fernando Grade).
Ibidem.

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COITO

SONETO DE FERNANDO GRADE


"Ninguém tem o direito de ser feliz sozinho."
                                 

                             (Denise Legrix)



ABRAÇAS-ME com as pernas em tenaz
por sobre os rins que sinto agora à pressa.
Queres-me assim fardado de rapaz
no teu corpo onde o cio sobe à cabeça.

Traçamos com saliva a nossa letra.
Então a língua sabe a romãs bravas,
minério com que o dorso se penetra
feito som de água pra criar palavras.

Nessa terra sangrada o pólen salta,
lesto, de mim pra ti: dentes nas mamas,
areias, sal, carumas, maré alta.

E, enquanto o nosso corpo fica em chamas,
nenhuma tristeza ou burro nos derruba:
sou o teu macho e tu és a minha loba. 

(in livro de sonetos
"SAUDADE SÁBIA",
de Fernando Grade.
Edições Mic.
Estoril, 1979).
(in antologia
"25 ANOS DE POESIA
ANTOLOGIA 1962 - 1987",
de Fernando Grade).
Ibidem.
(in antologia de sonetos
"OS MELHORES SONETOS DE FERNANDO GRADE".
Selecção de poemas por ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO.
4 ilustrações / desenho de ARTUR BUAL.
Edições Mic -- Colecção Salamandra/16.
Estoril, Novembro de 1992.
Esgotado).


Fernando Grade
(Poeta Português)

segunda-feira, 18 de março de 2013

- emprestas-me então um sorriso?




- emprestas-me então um sorriso?
por tempo ilimitado?
prometo que não estrago
devolvo todo, inteiro
quando este nevoeiro
se cansar de ter-me a mim
- estranho pedido o teu.
porque me pedes tu isso?
acabo de acordar
dum pesadelo lançado
por um deus que é menor
que em vez de um sorriso
deixou-me nos lábios um grito
e nos olhos traços negros
que copiados ou ditos
por certo farão chorar
- preciso só dum sorriso
para enfeitar minha face
carregada por rugas d’ alma
que deixou de ter as cócegas
que me largavam nos olhos
o brilho do meu sentir
emprestas-me então um sorriso?
daqueles que deixas fugir
quando te vejo sonhar?
- vou tentar adormecer
viajar nas utopias
que quando estou acordado
as mato, por já não as querer
flores de perfume falso
luas que falam comigo
corpos a envelhecer
princesas que estão sem abrigo
amores por acontecer
lá vou encontrar um sorriso
lindo mas esquecido
por um desgosto qualquer
e em vez de te emprestar
trago-o preso nos dedos
porque to quero oferecer


Nuno Guimarães
(Poeta Português)