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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Entre Dois Rios com Margens – (des)construção transcultural e (re)afirmação da moçambicanidade na poesia de Delmar Maia Gonçalves



Quando se fala de mestiçagem, temos a tendência para filtrar o conceito associando-o a uma mistura de duas raças, mas, em Delmar, este processo é mais complexo dado as suas fontes culturais originarem de diversos pontos geográficos e é por isso que associo a mestiçagem, neste autor, a um processo de (des)construção transcultural. Se as diversas influências culturais lhe trouxeram enriquecimento e um sentimento de libertação identitária, considerando-se um “cidadão do mundo”, também esta diversidade provocou uma espécie de caos fragmentado, uma identidade puzzle irresolúvel, que resultou numa (re)afirmação de uma identidade única, que o liga a um ponto geográfico específico, a moçambicanidade.
Quem conhece a obra de Delmar, facilmente se apercebe das dicotomias identitárias, que surgem tanto pela mestiçagem de africano e europeu, como se pode confirmar em E  eu sou eu “Aqui estou eu/ mestiço de negro e branco” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006) e O Inevitável  “Não tenho culpa de ter nascido mulato;/ não tenho culpa que a minha mãe negra/ tenha amado um branco” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006); como pelas influências culturais absorvidas na diáspora “Repousam/ em mim/ velhos Imbondeiros/ comigo sentado/ à beira de uma Oliveira” (Entre dois rios com margens, 2013); e, também, como consequência dos processos de transculturação trazidos pela globalização, que contrastam com as suas raízes culturais ancestrais africanas. Por outro lado, também a sua vertente africana sofreu um processo de hibridização cultural, próprio da Zambézia, onde, além da diversidade cultural das diversas etnias africanas, se verificam influências culturais asiáticas, europeias e árabes, quer através do cinema e da culinária, quer pelas comunidades aí existentes que, desde sempre, se miscigenaram com os locais, provocando interessantes fenómenos de transferências culturais. Delmar, cuja avó resultava já de um casamento entre africana e indiano, tinha familiares tanto católicos, como muçulmanos, tanto africanos, como europeus e goeses. São estas influências que dão força a um sentimento de libertação identitária, considerando-se o autor um “cidadão do mundo” em poemas como Mestiço de Corpo Inteiro “Sou mestiço sim/mestiço de corpo inteiro/ mestiço no espírito e na carne/ mestiço das Áfricas/ das Américas/ da Ásia/ da Oceânia/ mestiço das Europas/ mestiço do mundo, mestiço do mundo inteiro!” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006), A Universalidade do Crente “Sou Cristão/ Vou a Roma/ ou Belém/ vou à Igreja/ Ajoelho-me e oro/ Leio a Bíblia Sagrada/ Invoco Jesus Cristo/ Rezo a Deus/ Cumpro meu dever/ Retorno.// Sou Muçulmano/ Vou a Meca ou Medina/ vou à Mesquita/ Leio o Alcorão/ Oro/ Invoco Muahmmad/ Rezo a Allah/ Cumpro meu dever/ Retorno.// Sou Judeu/ Vou a Telavive ou Jerusalém/ vou à Sinagoga/ Leio a Torá/ Oro/ Faço a Tahanum/ Invoco David e Salomão/ Rezo a Adonai/ Cumpro meu dever/ Retorno.// Sou Hindú/ Vou a Benares ou ao Ganges/ vou ao Templo/ Leio o Gita/ Medito e oro/ Purifico-me/ Invoco Krishna/ Rezo a Om e Brahma/ Cumpro meu dever/ Retorno.//Sou Homem Global/ Crente de Deus/ e estou/ em sua busca” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006), Mestiçagem “Somos resultado de uma adição/ Quando subtraímos esquecemo-nos/ que antes houve adição (…) Feitas as contas/ a adição só enriquece/ não empobrece” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006); Arco-Íris Humano “Com tenra idade/ já me apercebera/ da beleza do mundo colorido./ Tentaram vendar-me os olhos para ver só a preto e branco./ Antecipadamente decidi fechar os olhos/ e viajar…/ Na viagem descobri/ a beleza do arco-íris./ Afinal o mundo não é/ só a preto e branco.” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006); O meu Eu “O meu Eu/ são vários Eus/ por isso/ não falo de mim (…) Mas a realidade/ do meu Eu/ é tão minha/ como o é/ dos meus Eus” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006) e O Fragmento (Eu) “Os fragmentos/ de que sou/ composto/ reclamam/ um pedaço que seja/ da esfera do caos!” (Entre dois rios com margens, 2013). Por outro lado, é também a dicotomia negro/branco, uma espécie de entre-lugar abstracto dos mestiços, que se revela ao mesmo tempo próximo e distante de duas (ou mais) culturas, nunca se inscrevendo inteiramente em qualquer uma delas, por duas razões: primeiro, porque não quer renegar os seus antepassados; depois, porque ambos os lados o aproximam e repelem, o que nos remete para a relação de abstracção de Georg Simmel “esta combinação de proximidade e de distância, que confere ao estrangeiro o seu carácter de objectividade, encontra a sua expressão prática na natureza mais abstracta da relação que se pode ter com ele (…) entre proximidade e distância, surge uma tensão particular a partir do momento em que a consciência de que só o que é totalmente geral é comum faz sobressair o que não é comum”. Apesar de este autor se referir ao “estrangeiro”, eu penso que os mestiços também se podem inscrever nesta descrição de abstracção e, ao mesmo tempo, também no sentimento de estranheza, do mesmo autor, porque nunca são inteiramente aceites como pertencendo a uma comunidade e são, por isso, estranhos e ambíguos. Esta ambiguidade nunca é bem aceite porque nos desorienta em sociedade; a ambiguidade não está perto nem longe, não é má nem boa, é estranha. Essa relação de abstracção/estranheza está patente em diversos poemas de Delmar, numa dinâmica antonímica rítmica, pulsante como os batuques africanos, conforme se pode atestar em Zé Pecado e o dueto Preto e Branco “Zé Pecado/ foi para o lado dos negros/ e levou um empurrão/ com um clamor de vozes:/ - Sai daqui seu misto sem bandeira (…) Com lágrimas vertendo/ foi para o lado dos brancos onde ouviu um eco de vozes/ clamando: - Sai daqui seu preto, sai daqui seu preto!” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006); Irmão Branco, Irmão Negro “Quando tu/ irmão branco/ de coração umbiguista/ me procuras insultar/ chamando-me preto (…) Quanto a ti/ irmão negro/ de coração libertino/ do tamanho da África/ quando me procuras/ ofender/ chamando-me/ misto sem bandeira (…) Afinal…/ não são sempre/ aqueles que mais amamos/ que nos maltratam/ e fazem sofrer (?)”(Mestiço de corpo inteiro, 2006).

Todas estas influências culturais foram importantes para a construção de uma consciência universalista, mas, por outro lado, também fomentaram uma fragmentação identitária resultante principalmente da divisão racial branco/negro. Como mestiço, foi empurrado para um entre-lugar essencialista, que fica entre duas raças, duas culturas com fronteiras. Daí o título do seu livro “Entre dois rios com margens”, fazendo, numa primeira interpretação, referência ao Rio do Bons Sinais, em Quelimane, cidade onde nasceu, e ao Rio Tejo, em Lisboa, cidade onde vive. Mas numa análise mais profunda do sentimento mestiço e da sua relação do autor com a diáspora, apercebemo-nos que é uma metáfora da dicotomia rácico-cultural negro/branco, moçambicano/português, africano/europeu, moçambicano no país natal/moçambicano na diáspora. Esta dualidade rivalizada colocava-o nesse entre-lugar ambíguo e desorientador. Creio que foi por este motivo que se impôs um sentimento de pertença a Moçambique, a uma colectividade moçambicana composta por negros, brancos, mestiços, chineses, indianos, árabes, entre outros, conforme o poeta afirma no poema Moçambique Moçambicano “Na minha Pátria/ não há pretos nem brancos/ há Moçambicanos.// Na minha Pátria/ não há mestiços/ há Moçambicanos.// E Moçambicano/ é aquele que/ sente o pulsar da/ pátria,/ Moçambicano/ é aquele que a vive.” (Mestiço de corpo inteiro, 2006). É de citar também, que no III Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, realizado em 2010, Delmar afirma “O escritor moçambicano na diáspora também é um escritor moçambicano”. O tema que apresentou nesse encontro teve a finalidade de confrontar questões relacionadas com o desprezo aos intelectuais que vivem na diáspora, por parte daqueles que vivem em Moçambique, que muitas vezes os “descartam”, afirmando que os escritores que vivem em Portugal são portugueses ou que os mestiços não são moçambicanos. O sentimento de pertença moçambicano está, no entanto, para além da raça ou do lugar onde vivem, está numa ligação umbilical a um ponto geográfico específico que coincide com o local de nascimento, local esse onde bebeu as primeiras influências culturais, que deixaram marcas profundas no nível informal e inconsciente daquele que se sente moçambicano. A prova disso é a poesia dos autores moçambicanos na diáspora. E neste caso, do Delmar, cuja poesia é o meu objecto de estudo. Antes de mais, é de notar que ele faz uma série de referências a Moçambique, ao povo moçambicano e a diversos pontos geográficos específicos no país (como Chokwé, Nicoadala, Quelimane, Luabo, Homoíne, Licuári, Namacata, Gorongosa, Muxunguè, entre outros), que estão frequentemente (mas nem sempre) relacionados com a guerra civil (na sua poesia mais antiga – vd. Moçambique Novo, o Enigma, 2005 e Moçambiquizando, 2005) ou com os problemas actuais do país (na sua poesia mais recente), em que aborda questões como o racismo, a corrupção, a miséria, os confrontos mais recentes entre a RENAMO e a FRELIMO, de onde surge um sentimento de “dor do mundo”, uma espécie de “esperança magoada”, em que ele, como se fosse o solo da sua pátria, carrega em si todo o sofrimento do povo moçambicano e, ao mesmo tempo, de todos os povos do mundo. Estas referências podemos encontrar em poemas como Lá vai o General “Lá vai/ o General/ O General sem rosto/ mas perfeito/ sempre perfeito/ apesar de tudo/ não sente a falta/ dos cifrões/ não usa patentes/ não usa coldres/ não usa arma/ de pão não tem falta/ usa fato/ usa balalaica/ tem motorista!/ Pois…/ Lá vai o General/ O General sem rosto/ sem consciência/ sem remorsos!/ “Comandante do barco”/ rico embora/ mas profundamente “Nacionalista”!/ Não nacionalizou/ ele o dinheiro?” (Entre dois rios com margens, 2013) e Em Moçambique “Em Moçambique/ ainda há Corvos/ de mau agoiro/ com sorrisos de Hienas/ e uma Voraz apetite de Abutres” , em que aborda a questão da corrupção; depois, temos Luabo “Em Luabo/ plantaram-se tumbas/ no lugar/ do paraíso açucarado” (Entre dois rios com margens, 2013) e Homoíne “Em Homoíne/ destilam-se lágrimas/ no vapor/ do tempo/ das balas” (Entre dois rios com margens, 2013), que fazem alusão aos confrontos político-militares mais recentes; também é de referir Pudessem “Pudessem os bons compreender/ que o seu silêncio é também/ o suicídio das almas vindouras (…) Pudessem os bons motivar-se/ para a acção contra a ditadura da passividade/ Pudessem os bons gritar/ bem alto – Basta!” (Entre dois rios com margens, 2013), que nos remete para a célebre frase de Einstein “O mundo é perigoso não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que vêem e deixam o mal ser feito”; e, finalmente, Escrita “Escrevo para exorcizar a dor (…) a dor do mundo!/ Não nasci por acaso” (Entre dois rios com margens, 2013), Dor “Minha dor/ é o somatório/ de todas as dores.// Sinto a intensidade/ da dor/ na pedra/ do meu vazio” e África “Já que/ o velho Imbomdeiro/ adormeceu ressequido/ em quantas partes/ dividiremos/ o Pão da nossa Fome?” (Entre dois rios com margens, 2013), em que é bem explícito o sentimento de “dor do mundo” do poeta.

Por outro lado, são também evidentes as influências da Negritude na construção da sua poesia e estão profundamente enraizadas na sua identidade moçambicana. Antes de mais, gostaria de referir uma citação de Mário Pinto de Andrade sobre a Negritude em Francisco José Tenreiro “a negritude põe de lado facções políticas e patriotismos (…) e repousa numa consciência em vias de renascimento, (…) é estruturalmente claro e directo nas suas falas, amargo e duro por vezes – a dureza necessária para que os ouvidos de todos a possam perceber plena”. Essa dureza, essas falas directas e claras e, ao mesmo tempo, amargas não só estão presentes na poesia do Delmar como são marcas estruturais muito importantes na sua poesia. Vejamos o que diz Amadeu Ferreira no prefácio a Entre dois rios com margens, 2013 “Apresenta-nos Delmar Maia Gonçalves um poemário com dezenas de curtas explosões, poemas que apenas duram o tempo de um clarão. As palavras a condizer com essa concentração luminosa, são um grito que oscila entre esperança e raiva, dor e denúncia, vida e morte, pão e fome, o bem e o mal, o paraíso e o inferno, num dualismo que atravessa toda a obra (…) Esta não é pois uma poesia neutra ou fora do mundo, bem ao invés, ergue-se como um espinho espetado no poeta, em toda ela perpassando denúncias sem fim”. A força semântica dos substantivos “silêncio”, “morte”, “raiva”, “dor”, “denúncia”, “fome”, leva-nos a concluir que o autor imprime na sua poesia essa dureza, essa amargura de que Mário Pinto de Andrade falou. Evidentemente que estas características não são por si só marcas da Negritude, mas sim, quando em conjunto com a tese sartreana sobre a negritude, de onde Albert Franklin extraiu os seguintes pontos de articulação: racismo anti-racista (patente em quase todos os poemas de Delmar sobre a condição do mestiço); sentimento do colectivismo (o sentimento de pertença moçambicano); o ritmo (que está presente na dualidade constante da sua poesia, conferindo-lhe uma similitude ao som dos batuques – “aqui estou eu” tum tum tum “mestiço de negro e branco” tum tum tum “Severo e brando” tum tum “Obstinado e ocioso” tum tum “Modesto e orgulhoso” tum tum “E eu sou eu” tum tum tum); concepção sexual (que encontramos no erotismo revelado em grande parte da sua poesia contida no livro Afrozambeziando Ninfas e Deusas, 2006); comunicação com a natureza (fazendo frequente recurso a elementos da natureza como “imbomdeiros”, “selva”, “hienas”, “lobos”, “corvos”, “rio”, “mar”, “lua”, “crocodilos”, “abutres”, “água”, “terra”, entre outros); culto dos antepassados (tomo como exemplo o poema Sonho Ancestral publicado nos Cadernos Moçambicanos nº1, 2004 ou em Nostalgia Africana, Moçambiquizando, 2006).

É por causa destas características evidentes de negritude, que o colocam em África, e da sua intrínseca ligação a Moçambique (veja-se ainda que no poema Voz das Conchas (Entre dois rios com margens, 2013) em que o poeta acredita que a sua ligação a Moçambique é tão forte que consegue, através de uma concha, fazer a sua voz ouvir-se no seu país, mesmo estando na diáspora) que acredito que Delmar só pode fazer parte da literatura moçambicana e nunca de uma literatura europeia, apesar de ser mestiço e de viver num país europeu. As suas marcas, o seu pensamento e a sua identidade estão de tal forma enraizados no seu país de origem, que se justifica inteiramente a sua (re)afirmação da moçambicanidade.



Vera Novo Fornelos
Junho, 2016
in "Milandos da Diáspora 2016"
Apresentado no IX Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora - 2016

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

"Culto Oculto - a via poética do Ser Ascendente" de Vera Novo Fornelos

Culto Oculto – a via poética do ser ascendente

 A via poética do Ser Ascendente não é mais do que a prática da poesia em momentos de meditação, é uma caminhada poética na procura da elevação espiritual, própria dos poetas que compreendem “o voo das aves”, dos poetas cuja alma “é feita da quinta essência do Universo”. Estes pequenos poemas, modestos, mas fortemente carregados de simbologia espiritual, surgem espontaneamente como fluxos iluminados e espifânicos, como “uma flauta/ que vibrava intensamente” e trazem-nos mensagens codificadas, umas mais fáceis de interpretar do que outras, que nos guiam na nossa jornada terrena, são singelos “koan” que nos propiciam a iluminação espiritual através da prática meditativa “compreende/ o voo/ das aves”, cujo sentido não se atinge através da interpretação intelectual “não te detenhas/ na articulação/ das suas asas”.


Vera Novo Fornelos

Autor: Vera Novo Fornelos
Ilustração da Capa: Cipriano Oquiniame
Prefácio: Delmar Maia Gonçalves

Lançamento em Copacabana/Brasil 
dia 8 de Fevereiro no Prémio Luso-brasileiro Melhores Poetas 2014.

Lançamento em Almada/Portugal
no Festival Internacional Saberes e Sabores 2014

Lançamento em Lisboa/Portugal 

dia 29 de Março no 4º Festival Internacional de Poesia "Grito de Mulher"


A Poeta da Utopia
Bom seria, que eu, enquanto poeta e prefaciador, fosse capaz de resumir a força do verbo que esta poeta vianense transporta e transmite. E a força de natureza poético-literária pode ser travada? Bem o diz a poeta em “Culto Oculto” : “ouço os vossos pensamentos/… nada em vós me é oculto/ penetro no vosso culto” e remata “e o que era estranho e escuro/ ilumina-se num coração puro”.
Em que momento a poeta e sua poesia pungente não se fundem e confundem formando um “corpus” único? A fusão acontece com a intensidade poética de uma flauta, como afirma “Procurei o silêncio/ no meu silêncio/ e escutei uma flauta/ que vibrava intensamente/ não há silêncio/ no meu silêncio…”.
A sua estreia no singular como autora de obra individual, não a coíbe de convicta reafirmar o que facilmente descobrimos ao lê-la “uma jazida de ideias/ é o que eu sou (…) uma dualidade sinergética/ que faz surgir as ideias”.
Depois, há sempre o sabor titubeante e quimérico das palavras que se desfolham e desnudam. Por vezes, a ternura também fere e, por vezes, também encanta. Das memórias se fazem histórias e  das histórias, poesia. Por isso, profética, reclama “Não há um caminho/ meio andado/ nem dois por andar/ mas um destino/ ainda por chegar”.  São memórias de quem as guarda no baú da sua “meninice” e no auge da sua maturidade como um tesouro. E bem se define ao afirmar “Sou um livro/ publicado/ na mortalha/ de um cigarro/ queimado”.  A emoção à flor da pele, com a palavra certeira, como uma arma que procura o alvo sem ferir, mas evita o falhanço ao constatar “se parar para pensar/ vou ouvir o vento/ e se o vento for o pensamento/ vai voar/ vai se libertar/ das amarras do tempo”.
Sensibilidade poética, que capta a essência do poeta numa rajada ao resumi-la cantando “A alma dum poeta/ é feita da quinta essência do Universo/ é alma desfeita/ e refeita num só verso”. E quem pode mudar o destino de uma poeta que vive numa roleta oculta e, que, paciente, define “A espera” como “uma  lamparina/ que se incendeia/ de esperança”? Bem nos avisa como leitores atentos “Compreende/ o voo/ das aves/ não te detenhas/ na articulação/ das suas asas”.
E um ciclo novo se abre com esta obra, quimericamente objectiva, que nos alerta para o “Culto Oculto”. Haja, pois, um diálogo genuíno entre o leitor e a autora da utopia convicta, pois “A vida/ segue/o seu percurso/ natural/ como um rio/ que fluí/ voluntariamente”.
Bayete Poeta!

Delmar Maia Gonçalves

Vera Novo Fornelos nasceu a 2 de Maio de 1981 em Viana do Castelo.
Desde muito jovem revelou paixão pelas artes dramáticas, pintura e poesia.
Fez parte de grupos de teatro amador desde os 13 anos e ainda com 16 anos foi convidada a participar no Grupo de Teatro da Associação Académica do IPVC e participou também em vários recitais de poesia.
É autora de blogues culturais e de poesia e está presente em algumas antologias nacionais e internacionais. Publica em Revistas Culturais moçambicanas como a Licungo e a Milandos da Diáspora.
Escreveu alguns dos textos que acompanharam a exposição de pintura “Um outro olhar sobre Viana” na Estalagem Melo Alvim em 2007 e a exposição de pintura “Dia dos Namorados” na Habit’os em 2008, organizadas pelo grupo artístico “Caçadores de Gambozinos”.
Também é artista plástica auto-didacta e participou em algumas exposições colectivas. Ilustrou a capa da obra “Antologia Universal Lusófona – Rio dos Bons Sinais 2013” e o poema “Magister Picasso” de Delmar Maia Gonçalves, publicado nos cadernos poéticos “Viola Delta”, coordenados pelo poeta português Fernando Grade.
Estudou Medicina Tradicional Chinesa na APA-DA, frequentou o curso Gestão no IPVC e vários cursos de web design e programação. Concebeu vários logótipos e websites para escritores, artistas e associações, alguns dos quais ainda são geridos por si. Concebeu ilustrações digitais para poemas do escritor Delmar Maia Gonçalves.
É membro fundador do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, onde faz parte da direcção. Também faz parte da direcção da ALDCI-ONGD.
Foi seleccionada para a Antologia dos 100 melhores poemas do TOC140, relacionada com o prémio TOC140 do Fliporto 2013 (Recife/Brasil).
É Embaixadora da Paz desde 2010.
Actualmente, é coordenadora da Mágico de Oz Empreendimentos Editoriais, em Lisboa.


quarta-feira, 20 de março de 2013

Linha de Montagem

Toca a sirene d'entrada
Da fábrica onde estou empregada
E entra humano formigueiro
Para trabalhar o dia inteiro.
Nos nossos postos ja colocados,
Terminamos trabalhos inacabados.
Fios coloridos uns vão puxando
E nos conectores colocando.
Outros, fazem rápidos enfitamentos,
Uniões e enganos desatentos.
"Zero defeitos!" nos nos vem exigir,
Numa cablagem pronta a sair.
Ensurdecem os ouvidos adoecidos
Pelas máquinas que libertam rugidos,
Ou assobios deveras irritantes,
Que se vêm tornando stressantes.
Ueeeeeeeeé! Ueeeeeeeeé! Ueeeeeeeeé!
Sirene d'entrada, todos de pé!
Tchec Tchac Tchec Tchac Tchec Tchac
Máquinas de corte em zigue-zague.
Vruuum! Vruuum! Vruuum!
Movem os motores um a um.
Zig Zig Zig Zig Zig Zig
Vêem-se as pranchetas a fugir.
Agora os fios que se unem,
Depois as uniões que se fundem,
As negras fita-colas que se desenrolam
Nas cablagens em que se enrolam.
O tic-tac do relógio constante
A lembrar o tempo restante.
O nervosismo da rapidez,
Dos trabalhos que correm com fluidez.
Vem enfiiiiiiiiim a hora do almoço
E todos fogem em alvoroço.
Devoram a comida apressadamente
E engolem um café bem quente.
Voltam para o posto para trabalhar,
Quase sem tempo para respirar.
Recomeça tudo outra vez
E continua-se o que ainda se não fez.
Instala-se novamente a confusão,
Que gera problemas de audição,
Enxaquecas, cortes e tendinites,
Varizes, stresses e artrites,
Para que se faça a produção,
Por uma fraca recompensação.
Grita então a sirene de saída,
Saem todos em fugida
E chega assim a paragem
Dum dia na linha de montagem.

Vera Novo Fornelos
(Poeta/Escritora Portuguesa)

domingo, 17 de março de 2013

O REENCONTRO


Serei uma flor
De pétalas aveludadas,
Carnudas e desejadas,
Que exala o perfume do Amor.
Serás um beija-flor
De penas aveludadas,
Coloridas e desejadas,
Que procura o perfume do Amor.



Vera Novo Fornelos
(Poeta/Escritora Portuguesa)

DEGRAUS DA INVOLUÇÃO I


O ódio, a dor
E a destruição
São o horror
Da involução,
Da mortandade
Desumana
Duma sociedade
Inumana.



Vera Novo Fornelos
(Poeta/Escritora Portuguesa)

sábado, 16 de março de 2013

Sem Título



Compreende
O voo
Das aves
Não te detenhas
Na articulação
Das suas asas


Vera Novo Fornelos 
(Poeta/Escritora  Portuguesa)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Dinis e a Lagartixa

Era uma vez uma lagartixa coscuvilheira que andava sempre no quintal da avó do Dinis. Essa lagartixa era tão curiosa que metia sempre o nariz onde não era chamada.

Um dia, a lagartixa viu um brilho muito bonito que saia de um buraco. Mas esse buraco era tão apertado, que quando ela lá meteu a cabeça ficou presa e não conseguiu sair mais.

O Dinis, que andava sempre a tentar apanhar a lagartixa, ficou muito divertido a vê-la a espernear a tentar sair do buraco e para lhe ajudar decidiu puxar-lhe pelo rabo, mas puxou com tanta força e lagartixa estava tão presa, que lhe arrancou o rabo. O Dinis ficou triste: -“Oh! Coitadinha da lagartixa, ficou sem rabo!”
Mas o rabo da lagartixa voltou logo a crescer. 

Ele ficou muito intrigado: -“Mas como é possível? Eu acabei de lhe arrancar o rabo e ela já tem outro!...”  

Agora é que o Dinis ficou mesmo confuso!...

Foi ter com a avó e perguntou: -“ Avó, como que o rabo da lagartixa voltou a crescer?”

Ela respondeu: - “Sabes Dinis, o rabo das lagartixas é como as más-línguas, a gente pode “arrancar” quantas vezes quiser, que volta sempre a crescer”.


Vera Novo Fornelos
(Poeta/Escritora Portuguesa)

segunda-feira, 4 de março de 2013

Se parar para pensar

Se parar para pensar
vai ouvir o vento
e se o vento for o pensamento,
vai voar,
vai se libertar
das amarras do tempo
e se o tempo
for como o vento
há-de passar
sempre sem parar.


Vera Novo Fornelos
(Poeta/Escritora Portuguesa)