Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Viegas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Viegas. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 26 de março de 2013

A fluidez do tempo



Viver de modo manselinho.
Beber água em goles demorados.
Dormir sob as árvores do caminho
Ir com o vento para todos os lados

Ter na alma a embriaguez do vinho
e a mansidão dos lagos parados,
e a música dos astros, de mansinho
retomada em versos inspirados.

Estar, como estão, as árvores na paisagem
Percorrer a lonjura dos desertos.
Sem marca alguma da minha passagem.

Pousar um olhar de mansa quietude
Nas linhas repousadas do teu corpo
Torvelinho do vício e da virtude.


Jorge Viegas
(Poeta/Escritor Moçambicano)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Balada dos lobos uivantes



Somos lobos, somos lobos,
Uivando na imensidão,
Somos lobos, somos lobos,
Já não temos coração.

Somos lobos, somos lobos,
Nosso deus é o cifrão,
Somos lobos, somos lobos.
E os pobres ficam sem pão.

Somos lobos, somos lobos,
Com a alma a vencer juros,
Somos lobos, somos lobos,
Gostamos destes apuros.

Somos lobos, somos lobos,
Entra pois na alcateia,
Somos lobos, somos lobos,
Alinha na melopeia.

Somos lobos, somos lobos,
Uivando na escuridão,
Somos lobos, somos lobos,
Já não temos coração.



Jorge Viegas
(Poeta/Escritor Moçambicano)



domingo, 3 de março de 2013

Poema vazio

Tu não existes.
Se tivesses existido
Terias ocupado todos os espaços
Dos meus poemas
E eu estaria
Livre das algemas
De sentir que passei na vida
Sem a ter vivido.
Tu não existes.
E sem ti
Nem sequer ouso pensar
Que eu tenha existido.


Jorge Viegas
(Poeta Escritor Moçambicano)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Leituras em Diagonal por Jorge Viegas

O medo e a Esperança de Fernando Couto




“Glória a Deus nas alturas, e Paz na Terra aos homens de boa vontade”. Esta frase angélica é a epígrafe ideal para um escrito no qual se pretenda assinalar o nascimento de Jesus. Julga-se que os poetas são homens de boa vontade. Eu julgo que nem todos o são. Mas o poeta Fernando Leite Couto, decerto que o é. Nascido em Rio Tinto, Porto, em 1924, e fixado na Beira, Sofala, Moçambique, a partir de 1953, este poeta foi escrevendo a sua obra algo à margem dos centros de interesse literários, mas não de um modo superficialmente atento à realidade africana.


Num território ocupado, os únicos sinais permitidos são os do ocupador. A dimensão humana do sujeito à ocupação é rasurada, e passa a ser integrada como um elemento paisagístico. Só que, a configuração anímica do ocupador não é uniforme. Um ou outro elemento, dos que a constituem, recusam acertar o passo com as linhas gerais que lhes são definidas como sendo as mais próprias.

Fernando Couto é, com muita propriedade, um desses elementos. Ele tenta, e porque animado por uma fé verdadeira na possibilidade de comunicação entre homens de raças e culturas diferentes, decerto que a conseguiu obter. E a mais cabal prova desse conseguimento, será não só a sua obra literária como a do seu filho, o meritoriamente laureado escritor moçambicano, Mia Couto.

O poema “O medo e a esperança” retirado do livro “Jangada do inconformismo” descreve a busca de sinais de entendimento e aproximação entre dois seres humanos divididos por um passado de incompreensão e de antagonismo brutal. A perspectiva desvelada é a do poeta, permanecendo a da outra personagem do poema na incógnita do seu silêncio de oprimido.

O poeta inicia a sua narrativa a partir do seu próprio movimento: “Tranquilo e devagar entro na aldeia | de mão ao alto aberta em sinal de paz | desertas e contudo palpitantes | se encontram ainda as palhotas.” Quando o seu olhar se cruza com o de um dos habitantes da povoação o poeta apercebe-se duma tensão latente gerada por um terror ancestral: “ No único rosto presente é visível | o medo está atento procurando antecipar-se | nos meandros da incómoda adivinha | Falo e sorrio e entreteço pontes de caniço | e nãos sei estendê-las até à outra margem: | fechado e atento o rosto em frente do meu | entremeia um rio sem vau e sem barcos | de águas opacas e demasiado largo”. As raízes do medo afundam-se na noite dos tempos: “Procuro na memória de distantes avós | autênticos e críveis sinais de paz | e ao fazê-lo acordo aves de lembranças | de ventres pejados de sangue e ódios | e apenas avivo no rosto em frente as cores do medo. | Olho o meu braço estendido e nu | inofensivo e pronto à espera do acolhimento | e no rosto em frente projecta-se uma sombra | a dolorosa sombra-lembrança de um chicote | E o medo ganha relevo no rosto escuro | atento e vigilante à porta da palhota: | pergunto aos teus olhos e às tuas costas | à tua carne e ao abismo dos teus olhos | onde e quando brotou a fonte desse medo | -  como se eu fosse o deus vivo do raio | e fizesse empalidecer o teu rosto cor de noite | a ti que nunca me viste e contudo és valente | e já viste de perto a fome de feras em liberdade. A pergunta do poeta debate-se com a impassibilidade silenciosa daquele a quem é dirigida: “Quero perguntar de frente aos teus olhos | e a tua cabeça pende como um ramo | ameaçando de morte com o peso dos frutos | prestes a perderem-se inúteis em chão batido.” Mas a esperança que anima o coração do poeta permite-lhe ter a certeza ser possível estabelecer elos de ligação solidária entre ele, erroneamente identificado como um dominador, e o camponês moçambicano envolto pelas sombras do medo: “Quero perguntar-te e não sei os gestos | nem as palavras mágicas ou compreensíveis | para conjurar a mancha de medo | que ensombra o teu rosto esculpido em negro | Não sei os gestos e as palavras mágicas | e todavia não desisto e procuro | certo de haver uma ponte praticável | entre os meus e os teus olhos erguidos.” E essa busca insistente dos gestos e das palavras mágicas justificam uma parte razoável da obra poética de Fernando Couto, e, em grau mais elevado, a extensa obra literária de Mia Couto.

Jorge Viegas  
(Poeta/Escritor Moçambicano) 




          

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Personalidade do Mês - Outubro 2011

Personalidade do Mês
Jorge Viegas

(Escritor Moçambicano)



Nasceu em Quelimane no dia 6 de Novembro de 1947.
Publicou os livros Núcleo Tenaz, em 1982 e o Novelo de Chamas em 1989.
Está representado em Cadernos Caliban nº1, nº3/4, nos anos de 1971 e 1972, respectivamente. No Reino Caliban 3 em 1985. Participou na Antologia de Poesia Moçambicana “Nunca mais é Sábado” em 2004. Participou em “Poets of Mozambique”, em 2006. Também participou nos “Cadernos Moçambicanos Manguana” nº 1/2/3.