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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Antologia dos Silêncios que cantamos - Poesia Moçambicana


Ao publicarmos esta Antologia Dos Silêncios que Cantamos, concluímos com sucesso, a construção da ponte da palavra que iniciamos com as apresentações anteriores da Antologia Universal Lusófona Rio dos Bons Sinais e as Revistas Milandos da Diáspora e Licungo, que já incluíam autores moçambicanos na diáspora e na pátria mãe.
Um esforço fraterno que vai de encontro aos objectivos definidos pelo CEMD e dos quais não abdicaremos. Acreditamos firmemente, que as palavras são sempre reveladoras, mas os silêncios também.
Esperamos que esta antologia deixe marcas nas águas índicas da palavra e que os caminhos atlânticos se continuem a cruzar nos vates do Índico. Sendo certo, que a travessia se tornará mais deslizante e profícua, cantemos, então,  a beleza e o espanto, pois solitários permaneceremos.


Delmar Maia Gonçalves
(Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora)



COORDENAÇÃO LITERÁRIA: Delmar Maia Gonçalves


AUTORES ANTOLOGIADOS: Delmar Maia Gonçalves, Alex Dau, Jorge Viegas, Sónia Sultuane,Domi Chirongo, Inez Andrade Paes, Custódio Duma, Ana Mafalda Leite, Nuno Guimarães, Japone Arijuane, Ribeiro Canotilho, Amosse Mucavele, Nelson Lineu, Martins Mapera, Amélia Margarida Matavele e Poeta Militar.

CAPA: Luis Filipe Pessoa E Costa.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Ribeiro Canotilho

RIBEIRO CANOTILHO
O seu nome artístico evoluiu de Ribeiro Couto para RIBEIRO CANOTILHO, sendo este último apelido o legítimo paterno, tal como legalmente é preceituado, em função de já o mesmo haver sido alterado no registo de seu pai, originalmente. Assim é reposto o apelido familiar final, após 94 anos ( em 2011 ). Aliás, quiçá apelidos judaicos oriundos de Cinco Vilas, próxima de Almeida, e de Pinhel, também conhecida por Cidade Falcão, berço dos Canotilho, ambas da análoga região de Riba - Côa, Beira Alta, Portugal. 
Nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, em 1946.
Pintor, desenhista, escultor, ceramista, mosaista, tecelão, poeta, restaurador, percussionista e ex-bailarino.
Estudou Artes-Plásticas, Pintura e Escultura em Moçambique, África do Sul e Portugal.
Foi aluno dos pintores João Ayres, António Heleno, Germinal Curado, Aníbal Ruivo, Gustavo de Vasconcellos, dos escultores José Rubens Pinto Serra, Raquel Boléo, Jorge Silva Pinto, António Pacheco, Professor-Doutor e Crítico d´Arte Alberto de Moura Vitória, etc.
Docente em variadíssimas escolas, leccionou Desenho-Geral, Desenho de Observação e Ornato, Desenho-Geométrico, Trabalhos Oficinais (Tapeçaria e Cerâmica), Educação-Visual, Desenho, Trabalhos Manuais e EVT - Educação Visual e Tecnológica, nos ensinos oficial e particular dos níveis preparatório, unificado e secundário de 1972 a 2002, em Moçambique e Portugal.
É professor aposentado na actualidade .
Finalmente ! Dedica-se por inteiro ao seu mundo supracitado.
Artista originário duma família íntimamente conotada com as artes-plásticas e musicais, de há várias gerações.
Pertence legitimamente aos RIBEIRO ( das Cinco Vilas, antiga área de Almeida ),
e aos CANOTILHO, cujo berço é a Cidade de Pinhel, vulgo Cidade Falcão, ambos
originais da Beira-Alta, Portugal.
Incentivado pelo dom, experiência e fino trato de sua mãe D.Adosinda Tavares Ribeiro Couto ( linha essa proveniente, idem, de sua avó-materna D. Cândida Correia Tavares Ribeiro e de sua bisavó-materna Maria d´Ascenção Caldeira Galha Ribeiro), iniciou-se assim no aprendizado do Desenho aos dois anos e meio no Ile, Zambézia, Moçambique e pinta "a sério" desde 1962 à actualidade.
Nos anos 1964/65 integrou em Moçambique, o "Grupo Sete" de Artes Plásticas.
Na actualidade é porta-voz, percussionista, declamador e ex-bailarino do "Grupo Khumbuka" (Recordações), grupo musical-coreográfico representativo das tradições do sul moçambicano, fundado em Lisboa, em 1993.
Foi convidado a expor em Angola, em 1973, na I Bienal Ibero-Americana de Pintura na Cidade do México, 1978, no Musée Art Spontané Kunst, em Bruxelas em 1991 e na Bardonia International Art Fair, em Nova York, E.U.A., 1996.
Colaborador de Raúl Indipwo (desde 1991), obteve de artistas africanos de craveira internacional, vintena e meia de pinturas que passaram a engrossar o acervo do Museu da Fundação Ouro Negro, em Atrozela, Cascais, sendo desde então indicado por aquele notável artista como embaixador cultural daquele organismo.
Colaboração por indicação do notável pintor Eleutério Sanches, por duas ocasiões:
A 1ª num grupo de pintores lusófonos na feitura do mural "Pintar Portugues", na antiga séde da UCCLA - União das Cidades Capitais Luso-Afro- Américo-Asiáticas, em Lisboa, e outros para o Turismo da Câmara Municipal de Lisboa.
Aprendeu percussão africana com o virtuoso baterista, percussionista e pianista moçambicano Mestre Alberto Pascoal.
Exposições individuais e colectivas e representações pictóricas em África, nas Américas, Ásia, Europa e Oceania.
Elaborou grandes cenários, grandes painéis cerâmicos, cartazes e capas de livros, entre os quais "O hospital e o seu mundo", do romancista moçambicano Eduardo Paixão (1973), "Trinta facadas de raiva", em ilustração parcial do livro de poemas de António Calvinho (1999), "Entre dois rios com margem", do poeta moçambicano Delmar Maia Gonçalves (2008) e "Descolonização e Independência de Moçambique - Factos e Argumentos", do Doutor Henrique Terreiro Galha (2009) e ainda um bloco filatélico e duas colecções de sêlos postais para os Correios de
Moçambique, em 1974.
Ex-representante e ex-correpresentante de Moçambique no grupo de pintores da UCCLA -União das Cidades Capitais Luso-Afro-Américo-Asiáticas, em Lisboa, Portugal.
Pintor representante de Moçambique na exposição de artes-plásticas do Pavilhão da C.P.L.P., na "Expo ´98", em Lisboa, Portugal.
Publicado em livros de arte e sob outras diversas formas em publicações nacionais e internacionais.
No prelo, os livros de poesia "Nos Píncaros do Inconformismo" e "Na Poeira da Mafalala".
CERIMONIAL EM PRELÚDIO
NO REINO DE YEMANJÁ

O CANTO DO BEIJA-FLOR

terça-feira, 26 de março de 2013

A fluidez do tempo



Viver de modo manselinho.
Beber água em goles demorados.
Dormir sob as árvores do caminho
Ir com o vento para todos os lados

Ter na alma a embriaguez do vinho
e a mansidão dos lagos parados,
e a música dos astros, de mansinho
retomada em versos inspirados.

Estar, como estão, as árvores na paisagem
Percorrer a lonjura dos desertos.
Sem marca alguma da minha passagem.

Pousar um olhar de mansa quietude
Nas linhas repousadas do teu corpo
Torvelinho do vício e da virtude.


Jorge Viegas
(Poeta/Escritor Moçambicano)

domingo, 24 de março de 2013

Magaíça

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.

Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...

A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualque City.




Noémia de Sousa
(Poeta Moçambicana)

Inundação

I

Chuva forte
Impetuosa chuva
Cai no povoado.
Vai fazer sorrir o campo
Vai alegrar santo milho
Vai fazer crescer feijão.
Todos olham
Todos esperam comer
Todos esperam matar fome.

II

Vão encher barriga negra
Vão encher palhota de reservas
Vão encher panelas todos os dias
E vão também calar boca de crianças.
Chuva cai fortemente
Chuva cai impetuosa
Chuva cresce lentamente as águas.

III

Engrossa, engrossa lentamente o rio
Lento já galgou margens
Já subiu o vale
Já rebentou…

Milho afogado e batata-doce morreu!

Quem vai encher palhota de reservas
Encher panelas de barro
E calar de boca crianças?


Albino Magaia
(Poeta Moçambicano)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Grito Negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.



José Craveirinha
(Poeta Moçambicano)

Lua Nova


“Quenguêlêquêze!... “Quenguêlêquêze!... (Lua Nova)

Surgia a lua nova,
E a grande nova]
— Quenguêlêquêze!...— ia de boca em boca
Traçando os rostos de expressões estranhas,
Atravessando o bosque, aldeias e montanhas,
Numa alegria enorme, uma alegria louca,

Loucamente,
Perturbadoramente...

Danças fantásticas
Punham nos corpos vibrações elásticas,
Febris,
Ondeando ventres, troncos nus, quadris...

E ao som de palmas
Os homens, cabriolando,
Iam cantando
Medos de estranhas vingativas almas,
Guerras antigas
Com destemidas impias inimigas
— obscenidades claras, descaradas,
Que as mulheres ouviam com risadas
Ateando mais e mais
O rítmico calor das danças sensuais.

“Quenguêlêquêze!... Quenguêlêquêze!...”

Uma mulher de vez em quando vinha,
Coleava a espinha,
Gingava as ancas voluptuosamente,
E diante do homem, frente a frente,
Punham-se os dois a simular segredos...
— Nos arvoredos
Ia um murmúrio eólico
Que dava à cena, à luz da lua, um que diabólico...

“Quêze!.Quenguêlêquêze!...”

... Entanto uma mulher saíra sorrateira
Com outra mais velhinha;
Dirigiu-se na sombra à montureira,
Com uma criancinha.
Fazia escuro e havia
Ali um cheiro estranho
A cinzas ensopadas,
Sobras de peixe e fezes de rebanho
Misturadas...O vento, perpassando a cerca de caniço,
Trazia para fora o ar abafadiço,
Um ar de podridão...
E as mulheres entravam com um tição:
E enquanto a mais idosa
Pegava na criança e a mostrava à lua
Dizendo-lhe: “Olha, é a lua”,
A outra, erguendo a mão,
Lançou direito à lua a acha luminosa.
— O estrepitar de palmas foi morrendo...
E a lua foi crescendo... foi crescendo...
Lentamente...
Como se fora em brando e afogado leito
Deitaram a criança, revolando-a,
Ali na imunda podridão, no escuro,
Lhe deu o peito...

Então, o pai chegou,
Cercou-a de desvelos,
De manso a conduziu p´los cotovelos,
Tomou-a nos seus braços e cantou
Esta canção ardente:

“Meu filho, eu estou contente!
Agora já na temo que ninguém
Mofe de ti na rua,
E diga, quando errares, que tua mãe
Te não mostrou a lua!

Agora tens abertos os ouvidos
Para tudo compreender;
Teu peito afoitará, impávido, os rugidos
Das feras, sem tremer...
Meu filho, estou contente!
Tu és agora um ser inteligente,
E assim hás-de crescer, hás-de ser homem forte

Até que já cansado
Um dia muito velho
De filhos, rodeado,
Sentido já dobrar–se o teu joelho
Virá buscar-te a Morte...
Meu filho, eu estou contente!
Agora, sim, sou pai!...”

Na aldeia, lentamente,
O estrepitar das palmas foi morrendo...
E a lua foi crescendo...
— Crescendo
Como um ai...



Rui de Noronha
(Poeta Moçambicano)

Balada dos lobos uivantes



Somos lobos, somos lobos,
Uivando na imensidão,
Somos lobos, somos lobos,
Já não temos coração.

Somos lobos, somos lobos,
Nosso deus é o cifrão,
Somos lobos, somos lobos.
E os pobres ficam sem pão.

Somos lobos, somos lobos,
Com a alma a vencer juros,
Somos lobos, somos lobos,
Gostamos destes apuros.

Somos lobos, somos lobos,
Entra pois na alcateia,
Somos lobos, somos lobos,
Alinha na melopeia.

Somos lobos, somos lobos,
Uivando na escuridão,
Somos lobos, somos lobos,
Já não temos coração.



Jorge Viegas
(Poeta/Escritor Moçambicano)



Hoje...

Hoje
meu coração
se encheu de rios de lágrimas.

Um jovem cidadão
estrangeiro,clandestino
e indocumentado
foi preso.

Hoje
meu coração
se encheu de rios de lágrimas.

O felino olhar azul
que trazia murchou.

Hoje
meu coração
se encheu de rios de lágrimas.

Sua pálida e alva mão tremia
de calor nervoso.

Hoje
meu coração
se encheu de rios de lágrimas.

O medo estava estampado
no espelho dos seus olhos
e reflectiu-se no espelho
da minha vida.

Hoje
meu coração
se encheu de rios de lágrimas.

Não tinha passaporte,nem bilhete de identidade!
Não tinha cartão do cidadão,nem cartão de residência!

Seu desesperado pedido de socorro
silencioso
não obteve resposta!
Ambos ficamos
sujeitos à impossibilidade da salvação!

Hoje
meu coração
se encheu de rios de lágrimas.

Por um Cidadão do mundo!


Delmar Maia Gonçalves
(Poeta/Escritor Moçambicano)

sábado, 16 de março de 2013

BRADO INCONTESTÁVEL

Sonho inconsútil, bárbaro
Abjecto e arquimagoado,
Mas não é sonho
Nem mesmo delírio
É pesadelo!
Que dói !,
Da voragem desenfreada,
Estranha,
Que tiveram em Moçambique
Com alvará
E alto desleixo
Do estouvado Portugal
Do Abril de 1974,
De nos surripiarem
Os nossos, muito nossos
Indiscutíveis bens.
Trinta agrestes
Milénios
Volvidos aquém,
De renovadas e laboriosas
Vidas,
Nos recônditos arquivos
Das Câmaras Municipais
Recrismadas
De Concelhos Executivos?
Lá, ainda prevalecem
Firmes os originais nomes
Dos estóicos obreiros
Sagazes e profícuos,
Quiçá eternos proprietários!
A olhos d´águia
Resolutos e plantados
Da ocidental praia lusitana
Face à oriental praia moçambicana,
A flecha bipolar re - assinala
Eternas e prevalecentes
AS NOSSAS
SAGRADAS BRÔAS BEIRÃS
Do ultra – repetível brado
Incontestável
No livre direito
À legítima herança
Usurpada
Conquanto re – amanheçam
Para sempre
Intransigente
E sublinhadamente :
QUE OS NOSSOS,
MUITO NOSSOS PRÉDIOS
SÃO NOSSOS !
NOSSOS
E NUNCA JAMAIS
DE MAIS NINGUÉM !!!
OU
INFERINDO NO DIREITO
AO DIREITO,
A LEGÍTIMA INDEMNIZAÇÃO
POR INQUESTIONÁVEL
E PROFUNDA RAZÃO !
A LEGÍTIMA INDEMNIZAÇÃO
POR INQUESTIONÁVEL
E PROFUNDA RAZÃO !!!



Ribeiro Canotilho
(Artista Plástico/Poeta Moçambicano)

TIMOR LORO SAH´E E ETERNO


Dia após dia ensolarado
Refulge e drapeja heróica
Ardente e pura no cio
Da libertação a grandiosa bandeira
De Tímor Loro Sah´e, campeoníssima
Sobre a vil
( Triliões de vezes vil )
P´la satânica opressão indonésia.
Dos alvores à consumação
Do grande batuque ardente,
Na peugada do trilho fundamental,
ERGUEMOS TODOS BEM ALTO !
De Lospalos ao Tata-Mai-Lau,
Do Mar Mulher ao Mar Homem
( Tassi-Fêto Tássi-Mane ),
De Oécussi-Ambeno ao Suai,
De Díli a Lisboa
E desta à ONU em Nova York
Ou ainda de Bruxelas a Djakarta,
A CHAMA DA TUA PROCLAMADA
E SACRATÍSSIMA INDEPENDÊNCIA !
ASSIM !
Imbuo meu espírito, idem, na tua mística,
Para que no porvir dos sonhos
Almejados pela gesta passada
E presente, brilhe e rebrilhe
No evolar do sândalo salutífero e aromático
O GRANDE TRIUNFO ETERNO
TÍMOR LORO SAH´E !!!


Ribeiro Canotilho
(Artista Plástico/Poeta Moçambicano)